Canto de Liberdade


Contam os antigos que no interior do estado de São Paulo nas grandes fazendas, onde verdejam imensos canaviais toda noite se ouvia o canto triste de um velho negro.

Mesmo liberto esse velho negro insistia em permanecer nas terras da fazenda, onde diferentemente dos seus irmãos de raça e sangue, não ouvia mais o estalar dos chicotes e tampouco era vítma de agressões.

Todas as noites dormia sobre alguns fardos amarrados por ele, feitos de palha da costa, que ficavam sempre junto à parede da senzala, sob a proteção do pequeno beiral que se projetava do telhado coberto por telhas rachadas e até mesmo quebradas.

E assim todas as noites esse velho negro cantava uma melodia triste que nos momentos em que a fazenda se encontrava em silêncio era possível escutá-lo até mesni na casa grande.

Certa vez a pequena sinházinha agitada pela energia natural de uma criança não conseguia dormir e escondido de sua ama seca abriu silenciosamente a grande janela de seu quarto e se debruçou sobre o parapeito e apreciava a linda noite de lua cheia e céu estrelado.

Entretanto essa noite ela notou algo de diferente no ar, era um canto...um canto bonito...

Ela apertava os olhos, como quem fizesse força para ouvir melhor o belo canto mas não conseguia identificar o idioma em que a voz cansada pela idade entoava.

Ali ficou mariazinha até que adormeceu.

Ao amanhecer Bartira a velha índia que tomava conta de Mariazinha acordou com o suave sol da manhã a beijar-lhe a face e assustada ao olhar para a janela apressa-se em apanhar Mariazinha e a coloca na cama para não despertar a ira da Sinha Emengarda.

Horas depois Mariazinha despertou e começou a inquerir Bartira sobre o canto da noite passada.

Bartira sempre respondia pacientemente que ela estava sonhando que não houve canto algum àquela noite.

Mariazinha tinha a certeza de que ouvira um canto e decidida a descbrir quem cantava, que música era aquela, muito ardilosa, resolveu conversar com os filhos dos escravos para tentar descobrir se eles sabiam de algo.

Foi então que Mariazinha foi até sua mãe e disse que queria sair para passear e sua mãe ordenou a Bartira que levasse Mariazinha para tomar a fresca mas que tomasse cuidado para não serem atacados por algum animal ou picados por uma cobra, ameaçando assustadoramente a velha índia caso algo de mal acontecesse a sua única filha.

Então foram para o jardim, mas Mariazinha pede a Bartira que a leve para perto da senzala ou do canavial pois queria brincar com crianças de sua idade.

Bartira negou várias vezes à criança esse capricho, mas novamente Bartira ameaçada, dessa vez por Mariazinha, cedeu ao capricho da menina e a levou para perto da senzala.

Ao se aproximarem da senzala as crianças se assustaram e correram para dentro da construção de pau a pique e lá ficaram com medo de serem castigados.

Novamente Mariazinha ordena a Bartira que traga as crianças para fora e pergutou a eles:

Mariazinha: "Crianças vocês sabem quem estava cantando uma linda cantiga de ninar ontém à noite?"

Pedrinho: "Sinhazinha nós sabemos quem estava cantando, mas não era nem uma cantiga de ninar e tampouco linda."

Mariazinha: "Como seu menino burro????perguntou Mariazinha com indignação. Eu dormi ouvindo uma linda canção!!!"

Joãozinho: "É sinhazinha a canção que o Velho Guiné cantava ontém era um lamento de saudade."

Mariazinha: "Lamento de saudade???????????Como isso???????????"

Pedrinho: "O Velho Guiné, mesmo livre, continua aqui na fazenda, pois na cidade tudo parece estranho, aqui pelo menos está perto de seu povo, onde pode ao menos contempla a força de trabalho dos jovens e a esperança que representam as suas crianças."

Com os olhos cheios de lágrimas Mariazinha se despede das crianças e volta à casa grande.

Poucos dias depois Mariazinha foi acometida por uma doença que nenhum médico soube identificar e poucos dias depois Mariazinha se foi.

O Velho Guiné meses depois fez a grande viagem de volta a terra amada, e nesse momento realmente pode viver sua liberdade, pois sentira que verdadeiramente os grilhões que o acorrentavam se quebraram e o som dos gritos dos feitores e estalidos de chibatas não mais ecoavam em suas mentes.

Tanto Mariazinha como o Velho Guiné tiveram a oportunidade de viver suas libertações um das tristezas e agressões do cativeiro a outra das amarguras e arrogâncias de uma criança mimada e arrogante.

Hoje o Velho Guiné vem sempre acompanhado de suas crianças do tempo do cativeiro, Pedrinho, Joãozinho e Mariazinha.


Espero que tenham gostado desse conto inpirado pelo Preto Velho Pai Guiné, que me acompanha nos trabalhos Umbandistas.


Um abraço fraterno.

Daniel
O Japa Umbandista

Comentários

Unknown disse…
Muito bom Daniel, continue recebendo os ensinamentos e divulgando, a espiritualidade precisa de que suas mensagens sejam passadas para que as pessoas possam aprender com as palavras simples que estão contidas nas suas "estorinhas", ao mesmo empo que leem vão sendo tratadas interiormente. que Pai Guiné abenções sempre a sua caminhada. Bjs. Sonia Ishibashi.

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